O cenário urbano do Rio de Janeiro está prestes a vivenciar uma mudança tão impactante quanto foi a derrubada do Elevado da Perimetral há uma década. A Prefeitura do Rio avançou nos estudos técnicos para a demolição de aproximadamente dois quilômetros do Elevado 31 de Março, a estrutura que hoje rasga o bairro do Catumbi e margeia o Sambódromo. O projeto, batizado de “Praça Onze Maravilha”, não é apenas uma obra viária; é uma estratégia de sobrevivência e renascimento para o Centro da cidade. Ao substituir o concreto elevado por uma via expressa ao nível do solo e um sofisticado sistema de mergulhões, o governo municipal aposta na reconexão urbana e na atração de milhares de novos moradores para uma região historicamente degradada.
Contexto atual detalhado: A herança do “urbanismo rodoviarista”
O Elevado 31 de Março, construído na década de 1960, é um símbolo de uma era em que as cidades eram desenhadas exclusivamente para os carros, ignorando a estética e a convivência humana no solo. Atualmente, a estrutura atua como uma barreira física e social, isolando bairros como o Catumbi e o Estácio do restante do Centro.
Embora seja uma artéria vital que conecta a Zona Sul à região portuária e à Avenida Brasil, o elevado trouxe consigo um processo de “sombreamento” urbano: as áreas abaixo dele tornaram-se inseguras, desvalorizadas e marcadas pelo esvaziamento econômico. O plano da prefeitura surge em um momento em que o programa “Reviver Centro” busca fôlego extra, utilizando a experiência bem-sucedida do Porto Maravilha como prova de conceito de que a remoção de viadutos pode valorizar o metro quadrado e devolver a dignidade ao espaço público.
Evento recente decisivo: O anúncio do “Praça Onze Maravilha”
O ponto de virada ocorreu com a apresentação formal do projeto ao Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU/RJ) e o lançamento de editais de chamamento público. Diferente de promessas genéricas de campanha, a prefeitura estruturou o projeto em dois eixos técnicos: o primeiro focado na engenharia da demolição e na nova solução viária (orçado em estudos de até R$ 2 milhões), e o segundo focado na modelagem jurídica e financeira via Parcerias Público-Privadas (PPPs).
Análise profunda: Além do asfalto e do concreto
A decisão de remover o 31 de Março carrega uma complexidade logística superior à da Perimetral. O fluxo de veículos que atravessa essa região é constante e denso.
Núcleo do problema
O grande desafio é como manter o fluxo de 80 mil veículos diários sem o viaduto. A solução proposta envolve a construção de mergulhões (túneis curtos) que permitirão o cruzamento de vias sem a interrupção do tráfego expresso. Isso libera a superfície para a criação do “Boulevard do Samba”, um corredor humanizado que integrará o Sambódromo ao tecido urbano.
Dinâmica estratégica e política
Politicamente, a obra é o “selo de qualidade” da gestão de Eduardo Paes, que busca consolidar sua marca como o prefeito que “moderniza o Rio derrubando muros”. O projeto também serve como um catalisador para o setor imobiliário, que já demonstra interesse na região da Praça Onze, impulsionado pela possibilidade de novos residenciais com vista livre e infraestrutura revitalizada.
Impactos diretos
Para o morador, o impacto imediato será a redução da poluição sonora e visual. Para o setor de eventos, especialmente o Carnaval, a remoção resolve um problema histórico: a limitação de altura das alegorias das escolas de samba, que muitas vezes sofrem para manobrar sob as vigas do elevado durante a concentração.
Bastidores e contexto oculto: A engenharia financeira
A prefeitura não pretende gastar apenas recursos diretos do Tesouro Municipal. A “mágica” financeira por trás do Praça Onze Maravilha reside na venda de potencial construtivo (CEPACs ou instrumentos similares). Ao revitalizar a área, o município cria valor onde hoje existe degradação e vende o direito de construir prédios mais altos para as empreiteiras. É o mercado imobiliário financiando a demolição do viaduto em troca da permissão para transformar o perfil da região de serviços para residencial de classe média.
Comparação histórica: O espelho da Perimetral
É impossível não comparar esta intervenção com a demolição da Perimetral em 2014. Na época, houve ceticismo sobre o caos no trânsito, mas o resultado foi a criação da Orla Conde e o renascimento do Porto. O 31 de Março é o “filho” dessa mesma lógica. Enquanto a Perimetral bloqueava a vista para o mar, o 31 de Março bloqueia a integração da “Pequena África” e do berço do samba com o restante da metrópole. A história se repete, mas com um foco maior em habitação do que apenas em turismo.
Impacto ampliado: O Rio como vitrine de urbanismo nacional
O sucesso deste projeto posiciona o Rio de Janeiro na vanguarda do urbanismo “post-car” no Brasil. Outras metrópoles brasileiras, como São Paulo com o Elevado Costa e Silva (Minhocão), observam atentamente. Se o Rio conseguir remover mais um grande elevado sem colapsar seu trânsito, provará que o modelo de túneis e mergulhões é a solução definitiva para as feridas abertas pelos planos urbanos do século passado.
Projeções futuras e tendências
Nos próximos cinco a dez anos, a expectativa é que a região entre o Sambódromo e o Estácio se torne um novo polo residencial. A construção prevista de uma nova Cidade do Samba e de equipamentos culturais, como uma biblioteca pública projetada por arquitetos de renome internacional, indica que a área deixará de ser um local de passagem para se tornar um destino. O tráfego será subterrâneo e eficiente, enquanto a superfície será de convivência.
CONCLUSÃO
A substituição do Elevado 31 de Março por mergulhões e uma via expressa ao nível do solo marca o início de uma nova era para o Centro do Rio. Ao priorizar a requalificação urbana e a integração social em detrimento da hegemonia dos viadutos, a prefeitura não apenas melhora a mobilidade, mas devolve a cidade aos cidadãos. O sucesso da “Praça Onze Maravilha” será medido não apenas pelos quilômetros de asfalto novo, mas pela quantidade de novos moradores e pela vida que voltará a pulsar no solo histórico do Catumbi e da Praça Onze.
As informações têm como base apuração publicada pelo portal: Diário do Rio.
