O aniversário de cinco anos da Ronda Maria da Penha (RMP), braço especializado da Guarda Municipal do Rio de Janeiro (GM-Rio), consolida uma virada de chave na segurança pública da capital fluminense. Criada no auge da crise sanitária de 2021, a unidade celebra um marco estatístico vital: em 2025, nenhuma das mulheres assistidas pelo programa foi vítima de feminicídio. A consequência prática desse dado não é apenas um número em uma planilha, mas a prova de que a presença estatal capilarizada e o monitoramento rigoroso de medidas protetivas conseguem interromper o ciclo de violência antes do desfecho fatal. Com mais de 10.500 atendimentos realizados desde sua fundação, a Ronda hoje atua como o último anteparo entre a vítima e o agressor, transformando a realidade de bairros que vão da Zona Sul ao subúrbio carioca.
Contexto detalhado do cenário atual da segurança feminina
O cenário da violência doméstica no Rio de Janeiro é complexo e multifacetado. Ao contrário do que sugere o senso comum, a agressão de gênero não respeita CEPs ou estratos financeiros. Atualmente, a Ronda Maria da Penha lida com um universo de mais de cinco mil medidas protetivas ativas simultaneamente. A demanda crescente, que culminou em quase 4.000 chamados apenas em 2025, revela tanto um aumento na confiança das mulheres para denunciar quanto a persistência de uma cultura de agressividade doméstica que sobrecarrega os órgãos de controle.
As equipes da GM-Rio operam em um ambiente onde a reincidência é o maior desafio. O agressor, muitas vezes, testa os limites da Justiça ao descumprir ordens de distanciamento, acreditando na impunidade ou na morosidade da fiscalização. É neste hiato que a Ronda se insere, realizando visitas regulares e acompanhamentos que somaram mais de 24 mil ações de acolhimento apenas no último ano. Esse volume de trabalho demonstra que a proteção não se resume a uma decisão judicial em papel, mas a uma vigilância ostensiva e diária.
Fator recente que mudou o cenário: A diversidade das vítimas
Um elemento que alterou a percepção pública sobre o trabalho da Ronda foi a divulgação de casos que fogem do estereótipo da vítima jovem. O atendimento a uma idosa de 100 anos na Tijuca, protegida contra a violência psicológica de seu neto, acendeu um alerta sobre a vulnerabilidade na terceira idade. Esse fator recente forçou a corporação a adaptar seus protocolos de abordagem, integrando a proteção física à assistência social e psicológica, entendendo que a violência doméstica muitas vezes se manifesta através de abusos financeiros e emocionais dentro do próprio núcleo familiar.
Análise aprofundada do tema: Eficácia e repressão
A análise da trajetória da Ronda Maria da Penha permite compreender que a eficácia do programa reside na sua capacidade de resposta rápida em situações de flagrante. Em 2025, a unidade registrou 265 conduções para delegacias e 43 prisões em flagrante, a maioria absoluta por violação de domicílio ou desobediência a ordens judiciais. O rigor na aplicação da lei serve como um desestimulante para o agressor e como uma garantia de dignidade para a mulher.
Contudo, a repressão é apenas uma das faces da moeda. O problema central da violência contra a mulher no Brasil é estrutural e exige uma articulação que vá além das algemas. A Ronda entende que, após a prisão do agressor, a vítima permanece em uma situação de fragilidade econômica e psicológica. Portanto, a dinâmica de trabalho foi expandida para incluir o apoio à autonomia feminina, conectando as assistidas a redes de empregabilidade e suporte multidisciplinar.
Elementos centrais do problema: A barreira do silêncio
Um dos maiores obstáculos enfrentados pelos guardas municipais é a quebra da barreira do silêncio. Muitas vítimas, por medo ou dependência financeira, hesitam em formalizar a denúncia. A Ronda Maria da Penha atua justamente na desconstrução desse medo, utilizando um efetivo de 100 guardas especialmente capacitados. O treinamento desses agentes foca na humanização do atendimento, garantindo que a mulher se sinta acolhida e não revitimizada pelo aparato de segurança.
Dinâmica política, econômica e estratégica
Estrategicamente, a Ronda Maria da Penha integra uma rede nacional de proteção que permite a troca de informações entre diferentes esferas do governo. Politicamente, o sucesso do programa fortalece a Guarda Municipal como uma instituição que vai muito além do ordenamento urbano ou da proteção do patrimônio público; ela se torna uma polícia de proximidade, essencial para a preservação da vida. Economicamente, o investimento nessas patrulhas reduz custos indiretos com saúde pública e assistência social a longo prazo, ao evitar crimes de maior gravidade.
Possíveis desdobramentos: A expansão tecnológica
A tendência é que, nos próximos anos, a Ronda incorpore mais ferramentas tecnológicas, como o monitoramento por botões de pânico integrados ao Centro de Operações Rio (COR) e o uso de inteligência de dados para mapear as “zonas quentes” de descumprimento de medidas. A integração com a Secretaria Municipal da Mulher é o pilar que deve sustentar essa evolução, permitindo que a fiscalização seja acompanhada de uma verdadeira porta de saída para o ciclo de violência.
Bastidores e ambiente de poder: A rigidez dos protocolos
Nos bastidores da GM-Rio, o clima é de rigor operacional. O inspetor geral Itaharassi Bonfim Júnior mantém diretrizes claras sobre a conduta das equipes. O ambiente de poder dentro da instituição mudou com a ascensão da RMP: hoje, o prestígio interno está ligado à capacidade de mediação e resolução de conflitos domésticos, e não apenas à força física. Há uma vigilância interna para que o atendimento seja impecável, pois qualquer falha pode significar uma vida perdida sob a guarda do Estado.
Comparação com cenários anteriores: O antes e o depois da pandemia
Se olharmos para o período anterior a 2021, o cenário era de uma lacuna assistencial perigosa. Antes da criação da Ronda, as mulheres com medidas protetivas dependiam quase exclusivamente da Polícia Militar, que, devido à alta demanda por crimes violentos e tráfico de drogas, nem sempre conseguia realizar o acompanhamento preventivo domiciliar. A pandemia de Covid-19, que gerou um aumento de 80% nos casos de violência doméstica segundo o DataSenado, foi o catalisador que obrigou a prefeitura a criar uma força tarefa dedicada. Hoje, o cenário é de controle e prevenção ativa, algo inexistente há apenas meia década.
Impacto no cenário nacional e internacional
O modelo da Ronda Maria da Penha carioca tem servido de inspiração para outras metrópoles brasileiras e até internacionais. A integração entre o patrulhamento municipal e a assistência social é vista como um “case” de sucesso em congressos de segurança pública. O impacto internacional é sentido no cumprimento de tratados de direitos humanos dos quais o Brasil é signatário, como a Convenção de Belém do Pará. O Rio de Janeiro, ao zerar o feminicídio entre as assistidas em 2025, envia uma mensagem poderosa ao mundo sobre o compromisso com a dignidade humana.
Projeções e possíveis próximos movimentos
Para 2026 e além, as projeções indicam a necessidade de aumentar o efetivo da Ronda para dar conta da crescente demanda. A meta é atingir 100% das medidas protetivas expedidas pelo Tribunal de Justiça do Rio com visitas semanais. Outro movimento esperado é o fortalecimento das ações educativas em escolas e empresas, atacando a raiz do problema: o machismo estrutural. A liderança de Glória Maria na Ronda aponta para um futuro onde a autonomia financeira da mulher seja tão prioritária quanto a sua integridade física.
Conclusão Interpretativa
Ao completar cinco anos, a Ronda Maria da Penha da GM-Rio deixa de ser um projeto emergencial para se tornar uma política de Estado indispensável. O sucesso de não ter registrado feminicídios em 2025 entre as mulheres sob sua guarda é a maior medalha que a corporação poderia ostentar. Contudo, o aumento exponencial de chamados acende um alerta: a sociedade ainda está produzindo agressores em larga escala. A segurança pública fez a sua parte ao criar a rede; agora, o desafio é cultural. Enquanto houver uma mulher precisando de escolta para viver em sua própria casa, a missão da Ronda continuará sendo o termômetro da civilidade carioca.
As informações têm como base apuração publicada pelo portal: Diário do Rio
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